Reflexão #11 

O ser humano por trás da mãe especial

As mães especiais são aquelas rotuladas de guerreiras, fortes, heroínas, quase deusas, um exemplo de mãe para uma sociedade que prefere idolatrar aquela que, por imposição do destino, tem que encarar sua missão, pois ela não tem opção, a se aprofundar nesta novidade para muitos. Essas mães alcançam o mais alto lugar no pódio, lugar este que apesar de reconhecido por muitos, não é almejado por ninguém.

Ao mesmo tempo que existe toda esta reverência social a nós mães especiais existe o lado penoso que também temos que lidar, encarar uma sociedade que tem dó de nós, que nos olha estranhamente, que nos mede de cima a baixo quando nos veem com nossos filhos, que nos acham um alien e ao mesmo tempo uma totem de informação para sanar a curiosidade e as dúvidas de algum curioso sobre nossos filhos, pois toda essa negação, estranheza e preconceito não é somente privilégio dos nossos filhos ditos especiais, nós, suas mães, também sofremos muitas vezes das mesmas coisas.

Uma sociedade que muitas vezes priva as mães especiais de serem simplesmente elas, somos vistas por uma grande parcela, como pessoas extremamente cansadas o tempo todo, como coitadas, sempre ocupadas com as demandas de nossos filhos, somos privadas de sermos úteis a outras pessoas, por excesso de cuidado ou dó, não somos incluídas em muitas tarefas as quais daríamos conta facilmente. Somos quase proibidas de ajudar alguém, pois já temos alguém para cuidar. Seria apenas cuidado? Não sei, confesso que isso beira um pouco o preconceito, além da falta de interesse de buscar informação e conhecer mais de perto a rotina daquela mãe. Agindo dessa maneira tiram nosso direito de ir e vir, de sermos livres e criam mais um rótulo, escravas. Nos tratam como escravas de nossos filhos, e não somos, eles são apenas seres humanos que precisam de uma atenção a mais, adaptações quando necessárias, mas vivem, eles tem vida própria, e nós também, e mais, queremos e precisamos sair da rotina, fazer coisas e ver pessoas diferentes, ter outras preocupações, outras responsabilidades, outros tipos de cobrança, precisamos dessa liberdade, desse tempo, dessa separação para que nosso tempo juntos seja saudável e produtivo para ambos, a rotina já é pesada, mas pode não ser penosa se nos permitirmos, se nos permitirem, se nos aceitarem. Muitas vezes nos sentimos sufocadas.

O fato é que quando estamos entre pessoas típicas o tom de piedade, consolo e palavras de otimismo são inevitáveis, confesso que nós, supermães, adotamos este estereótipo de fortaleza que a sociedade nos impõe e bradamos nosso discurso quase que repetitivo de inclusão nas mais diferentes esferas, afinal de contas esta é a nossa bandeira que defendemos e lutamos com unhas e dentes, afinal de contas somos mães, e nós cumprimos nosso papel à risca.

Mas voltando aos nossos rótulos iniciais, somos tudo aquilo sim e muito mais…Somos mulheres com vontades, limites, divertidas, animadas, corajosas, desbravadoras, pesquisadoras, fazemos a fiscalização do trânsito nas vagas especiais, enchemos o peito para encarar uma fila preferencial, não por ter essa prioridade que ninguém quer ter, mas para nos encher de coragem para receber os vários olhares que se voltam a nós, também somos muito bravas, pois a sociedade nos exige isso diante de tanto desrespeito e preconceito, somos praticamente uma enciclopédia de neurologia, sabemos o que é tônus, hipotonia, hipertonia, espasticidade, sabemos também que botox não serve somente para tirar rugas, sabemos exatamente a diferença entre órtese e prótese, e ficamos muito bravas quando algum leigo troca esses nomes ao se referir aos nossos filhos, sabemos que o termo Paralisia Cerebral não se usa mais, na definição médica, e o nome correto é Encefalopatia Crônica Não Progressiva, mas a sociedade acha mais fácil falar PC e assim seguimos, apesar de não saberem o que significa de fato, conhecemos também as diferenças entre os termos Tetraplegia e Tetraparesia, Hemiplegia e Hemiparesia, entre outros que não vou listar aqui neste momento, e, além de tudo isso, em sua maioria, somos empreendedoras, tiramos coelho da cartola, pois vivemos em uma sociedade que não favorece o trabalho de meio período, tornando em muitos casos impossível retornar ao mercado de trabalho formal, o que resulta muitas vezes em mulheres autônomas que tem sede de produzir algo e, por falta de oportunidade, estão na informalidade, até que sejam ouvidas de alguma forma pela sociedade.

É importante para nós mães especiais sermos o foco, pois nossa luz é ofuscada em grande parte do tempo por nossos filhos que brilham ao mundo e nós os cercamos e protegemos a todo momento com todas as nossas forças e sorrisos impressos na face para que nada, além das suas dificuldades intrínsecas, os acometa ou magoe, estamos sempre por trás, somos e seremos sempre suporte, o apoio necessário, o braço ao fundo nas fotos, enquanto for preciso, somos plateia eterna, aplaudindo cada conquista, cada meta atingida, mas também precisamos de luz, precisamos de um lugar ao sol.

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