Reflexão #6

Sensibilidade

As férias escolares acabaram e a reflexão para mim é inevitável. Foi um período de muito aprendizado, de grandes mudanças, de muitos desafios, vários passeios, diversão, alegrias, descobertas e muito sentimento envolvido.
Em meio a tudo isso, um ponto importante chamou minha atenção, o qual refere-se a preocupação com o acompanhante ou cuidador de pessoas, principalmente crianças, que apresentem alguma dificuldade ou limitação, talvez por eu sentir isso na pele, e hoje, com olhar mais crítico e emoções mais controladas, consegui enxergar melhor esta questão e vi uma possibilidade de dissertar sobre tal assunto.
Assim como a pessoa que apresenta deficiência deve ser tratada com respeito e dignidade, que deve ter seu acesso garantido a todos os lugares e sentir-se parte do todo e não uma exceção, também deve-se ter esse mesmo cuidado com aqueles que as auxiliam, os quais muitas vezes estão envolvidos diretamente com tal pessoa. São sentimentos que borbulham a cada olhar diferente, a cada barreira, a cada degrau ou a cada impossibilidade, e com toda certeza, na maioria das vezes, quem sofre mais com esses tipos de “NÃOs” são os acompanhantes, muitas vezes pais e mães que carregam um sorriso no rosto e um pesar no coração cada vez que algo impede o fluxo natural das coisas.
Estes pais e mães não fazem um passeio sem antes ter informação sobre o local, quanto aos acessos e acomodações, para que a frustração não aconteça ou ao menos seja minimizada, tanto para a criança quanto para eles próprios, que se sentem derrotados quando uma dificuldade aparece. E quando o imprevisto é impossível o coração bate mais forte, as emoções ficam aguçadas até que se reconheça o território e consiga sentir-se confortável, o que nem sempre acontece.
Com tudo isso, penso que a SENSIBILIDADE é o bem mais precioso que alguém pode ter, perceber o outro e oferecer ajuda, seja ela qual for, é essencial. Dar um sorriso reconfortante a alguém que está passando por um momento de aflição ou insegurança já traz um acalento. Porque nós pais de preciosidades somos muitas vezes mais inseguros, mais sensíveis e frágeis que nossas crianças.
Quando alguém ignora o sentimento de um pai ou de uma mãe não tem idéia o mal que está fazendo, às vezes sem perceber, por pura falta de conhecimento, mas que se a sensibilidade estivesse presente, nem ignorância permitiria tal feito, pois a sensibilidade geraria a dúvida que consequentemente buscaria seu esclarecimento antes de agir ou falar de forma a ferir o coração de uma mãe.
Um exemplo de sensibilidade, tanto para os pais quanto para as crianças, são as inúmeras tecnologias hoje disponíveis para auxiliar nas limitações, que tentam fazer tudo “o mais legal” possível usando de cores, designer e diversão para que a paisagem idealizada por um coração de mãe seja cada vez menos afetada.
Passei por situações delicadas nestas férias, como me transformar em mil para segurar o carro de passeio com meu filho dentro, enquanto me esticava para pegar a mochila no banco do meu carro e em seguida fechava a porta do carro com uma mão, que sei lá de onde saiu, e então a chave do carro cai no chão…Três pessoas sentadas a menos de 1 metro de mim, olhando meu malabarismo e nenhuma se mexe, nem aplausos ganho no final quando paro. Respiro. Arrumo o carro do meu filho, de forma que não desça sozinho, e pego a chave no chão…Ufa.
Mas também tive momentos que pessoas solicitas vieram perguntar se eu precisava de algo, quando, ao meu ver, estava tudo sob controle. É a sensibilidade aguçada de alguns, o simples gesto de perguntar já me fez bem, pois é bom saber que o outro se importa com você, que você não está sozinha, isso faz bem ao coração.
Penso que o mundo tem que mudar muito ainda sob este aspecto, mas também acho que se cada pessoa, que tenha o convívio com outros que apresentem dificuldades ou limitações, se preocupasse em receber e acomodar estes convidados, como eu e o Vini temos em nosso convívio, a disseminação desta cultura do olhar pelo outro aconteceria mais rápido e tudo seria mais fácil, fluindo naturalmente.
O esforço de nós pais é imensurável e sem limites, mas quando percebemos pessoas e lugares que tem este olhar pelo outro, essa sensibilidade e cuidado, com certeza, somos mais felizes e o esforço fica menor. Agradeço a Deus, amigos e familiares que convivemos, que também fazem seus malabarismos para nos acolher da melhor maneira, que cuidam de nós sem deixar a diferença aparecer, isso é lindo, é fruto da mais pura sensibilidade.
A sensibilidade está perdida a partir do momento que as pessoas criam rótulos umas para as outras. Rotular, na maioria das vezes, causa constrangimento, segrega e maltrata, pois é impossível descrever uma pessoa em apenas uma palavra (rótulo), cada indivíduo é muito mais que isso, é complexo, é feito de momentos, de atitudes, de influências, de estímulos, de sentimentos, de outras pessoas, de lugares e outras tantas coisas, ou mesmo da falta de tudo isso, e com tudo isso é que se forma um ser único, com todos os seus defeitos e qualidades, dificuldades e facilidades, mas uma pessoa e nada mais, sem rótulos e sem nomes segregantes, mas para que isso aconteça a sensibilidade tem que vir à tona.
Mais uma vez agradeço a Deus por todos que nos cercam de amor e carinho, por toda a sensibilidade dispendida a nós, pois com certeza torna nossa caminhada mais fácil.
Ana Amélia M Lavoie

INSCRIÇÃO