Reflexão #3

Rótulos

Hoje vamos falar de rótulos e frases prontas que podem incomodar, e na verdade incomodam e muito, principalmente quando a fragilidade ainda impera. ”Imagino o que você passa !”, “Nossa, no seu lugar acho que eu não aguentaria!”, “Deus escolheu você para cuidar deste anjo!”,” Você é guerreira”,” Imagino como deve ser difícil”, “Você é especial”, “Seu filho é especial”, e outras muitas frases que já ouvi e confesso que nunca me consolaram ou confortaram, frases fáceis de serem ditas, mas quase impossíveis de serem sentidas, quase jargões para mudar ou encerrar um assunto, ou quando não se sabe o que dizer… Sei que ao falarem tais frases a intenção é boa, mas na prática não tem efeito, não que eu queira que as pessoas vivam o que, como eu, muitas famílias vivam, mas mudem o repertório, um assunto tão particular e, ao mesmo tempo, bastante presente atualmente não merece tamanha exaltação, não carregamos um troféu, são apenas crianças, com características diferentes de crianças típicas, mas ainda assim crianças. Em uma reunião informal não queremos ouvir, como já ouvi, “ O que ele tem?”, “ele tem problema?”, “ ele é esquisito”…, sinceramente não é o lugar, ali estamos para descontrair, para ser o que a rotina e o dia a dia não permite, definitivamente, as diferenças das nossas crianças não são motivo para puxar assunto. Tenham em mente que sobre as diferenças nós pais frequentamos especialistas e terapias que a todo momento nos faz refletir, contar e recontar cada detalhe e a essas pessoas sim cabe a investigação profunda. Com outras pessoas, confesso que queremos falar das conquistas, das gracinhas, das artes, das coisas que eles gostam de fazer e até das malcriações, mas jamais queremos falar daquilo que nos machuca e nos distancia, de alguma forma, dos seres ditos “normais”. Porque nós mães de crianças como o Vini, e de tantas outras, não somos a mulher maravilha que muitos falam, a incansável, forte, exemplo…, somos humanas, temos fraquezas, inseguranças, que na maioria das vezes não deixamos transparecer, mas as costas doem, a lã pesa ao carneiro sim, existem dias que queríamos não fazer nada, como qualquer um, e temos esse direito, nós mães também temos esse direito, vamos deixar isso claro aqui, pois muitos tem certeza que mãe é um ser extraterrestre que não tem vontade própria e nem limites, mas tem sim…eu garanto. E assim também não somos diferentes ao ouvir indagações curiosas sobre nossos filhos, não somos uma fortaleza sem sentimentos, não somos seres evoluídos, nestas questões, como muitos pensam. Eu particularmente gosto de contar a história do Vini, nossa história, falar sobre tudo que passamos de alguma forma me alivia, pois sei que estou ajudando alguém com orientações, sugestões, levando a reflexão a cada um, diante do meu relato, e assim encontro meu papel nisso tudo, além de cuidar do meu Vini, mas tudo tem seu tempo, hora e lugar. Uma palavra muito usada para definir crianças atípicas é ESPECIAL, mesmo antes de ter o Vini, eu e meu marido nunca achamos que era uma definição aceitável para determinadas condições, síndromes ou patologias, afinal de contas, especiais somos todos nós. Isso me faz lembrar um acontecimento que sempre relato a cada pessoa que chega com o conceito especial para definir meu Vini ou outra que seja portadora de alguma deficiência. O Vini já estava com 2 anos quando meu outro filho, João, iniciou um novo ano na escola, e na sala dele existiam novos alunos,  assim, logo nos primeiros dias muita brincadeira para recepção dos alunos e em certo dia o João estava brincando com os colegas, quando trocando os brinquedos ele pegou um brinquedo que um colega novo estava brincando antes e, por algum motivo, ele requisitou o brinquedo que agora estava com o João, imediatamente uma outra colega tirou o brinquedo do João e deu ao menino que havia reclamado e acrescentou: “- Deixe o brinquedo com ele…ele é especial”. Com tudo isso o João chegou em casa bastante triste e quieto, por duas vezes perguntei se havia acontecido algo e ele disse que não, resolvi deixar passar algumas horas e voltei a conversar com ele, e assim, mesmo antes de eu entrar no assunto de sua chateação, ele me indagou: “- Por que eu não sou especial?”, e então eu comecei a imaginar que aquilo tinha haver com o motivo da chateação, conversamos e ele me contou todo o ocorrido, o menino que tinha reclamado o brinquedo  tem Síndrome de Down, e aí concluí que eu tinha minha razão de não gostar do rótulo “ESPECIAL” em determinadas situações, e então expliquei ao João, assim como vou explicar a vocês meu ponto de vista. Todos nós somos especiais, eu, você, seu pai, tio, avô, avó, tia, Vini, enfim…,porém somos diferentes, e assim as pessoas tem necessidades diferentes umas das outras, e algumas tem maiores dificuldades que outras para realizar uma mesma atividade, isso nos faz únicos e especiais cada um ao seu modo. O que acontece é que muitas pessoas por desconhecimento ou ignorância usam o termo ESPECIAL para designar o diferente, o desconhecido e isto não está correto, ao se referir a alguém diferente de você esqueça o rótulo, ao descrever alguém não use sua condição para identificá-lo, lembre-se que ele tem um nome e outras muitas características que o definem muito mais que sua condição. Só sei que esse assunto rendeu e deu trabalho, uma criança de 7 anos achar que não era especial foi no mínimo triste, mas nisso tudo tem um lado lindo, o João se magoou muito com aquilo porque ele não via grandes diferenças entre ele e o colega com Síndrome de Down, ele viu naquele colega suas características como indivíduo, como colega de classe, interagindo com ele sem exaltar sua diferença ou dificuldade, ele queria apenas brincar com o colega. E por fim, que tal mudar o: “Imagino o que você passa” por “Vamos combinar uma tarde para as crianças brincarem?” “Nossa, no seu lugar acho que não aguentaria!” por “ Eu fico com ele, vai descansar um pouco” “Deus escolheu você para cuidar deste anjo” por “Você precisa de ajuda?” “Você é guerreira” por “ Estou junto com você” “Imagino como deve ser difícil” por “ Ele é tão sorridente” “Você é especial” por “ Você é uma boa mãe” “Seu filho é especial” por “ Seu filho é lindo”

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