Reflexão #4

Igualdade e Equidade

Certa vez uma pessoa me disse para, no momento certo, eu dizer ao meu filho que não era tudo que ele poderia fazer, que existiriam momentos que ele ficaria de fora. Confesso que não gostei nada do que tinha ouvido, afinal de contas nosso lema aqui em casa, para ambos os nossos filhos, é que eles podem fazer tudo que quiserem, no sentido de ter capacidade para isso.  Jamais seria eu a pessoa que iria limitar suas capacidades, principalmente ao Vini, meu papel é dizer que ele pode ser o que ele quiser, que ele pode e consegue tudo, e é assim que acontece, ele pode não fazer tudo exatamente igual as outras crianças, mas ele faz tudo sim e vai continuar fazendo, da maneira dele, com as adaptações e auxílios necessários, mas vai fazer, desde que ele queira. E então chegamos em duas palavras: IGUALDADE e EQUIDADE Vamos entender o significado delas: – IGUALDADE: é a ausência de diferença. A igualdade ocorre quando todas as partes estão nas mesmas condições, possuem o mesmo valor ou são interpretadas a partir do mesmo ponto de vista, seja na comparação entre coisas ou pessoas. A palavra igualdade está relacionada com o conceito de uniformidade, de continuidade, ou seja, quando há um padrão entre todos os sujeitos ou objetos envolvidos. – EQUIDADE: Equidade é o substantivo feminino com origem no latim aequitas, que significa igualdade, simetria, retidão, imparcialidade, conformidade. Este conceito também revela o uso da imparcialidade para reconhecer o direito de cada um, usando a equivalência para se tornarem iguais. A equidade adapta a regra para um determinado caso específico, a fim de deixá-la mais justa. Bem, o significado dessas palavras fundamenta bem tanto a maneira de pensar daquele que acredita não poder fazer tudo, quanto a minha maneira de pensar e agir sobre poder fazer tudo, mas de forma adaptada. Pois bem, iguais nenhum de nós somos, somos apenas semelhantes, assim como uma pessoa que precisa de óculos para enxergar, outros precisam de auxílio para se locomover, isso chamamos de equidade, para quem não enxerga bem lançou-se mão dos óculos e para aquele que não se locomove sozinho o andador entrou na paisagem, mas ambos puderam realizar atividades que pessoas típicas fazem, claro que o preconceito é outra palavrinha chata que insiste em mostrar suas garras quando a diferença aparece, seja ela uma simples deficiência visual até uma deficiência mais limitadora, e cabe sabedoria e inteligência para através das atitudes as pessoas pararem de apontar as diferenças como limite e passarem a considerar o diferente uma oportunidade de crescimento e aquisição de conhecimento, mas isso pode ser muito difícil para alguns, pois concordo que é cômodo viver cada um na sua bolha, na sua zona de conforto, isso exige menos, bem menos, mas também leva a ignorância conveniente. Muitas vezes praticar a equidade não precisa mais que disponibilizar seu tempo e assim dar atenção aquele que não está no mesmo ritmo que você. Uma criança com lesão cerebral, em sua maioria, é mais lenta que uma criança normal, podemos dizer uma demora no processamento de informações que varia de indivíduo para indivíduo, no caso do Vini a informação recebida é entendida de imediato, pois não tem comprometimento intelectual, porém para que a resposta seja dada pode ser mais lento e isso depende de diversos fatores, como: ansiedade, ambiente, estímulos e qualquer outra novidade que tire a concentração da criança. Mas tudo isso pode ser trabalhado e ter melhoras significativas. O Vini, quando está em casa, ou outro ambiente conhecido, percebemos que uma conversa flui muito bem, já quando aparecem novidades ou pessoas, que ele não está acostumado, vem conversar com ele, ou mesmo as ansiosas que ele conhece, que o atropela com perguntas, não esperando seu tempo de resposta ou já adiantando a resposta impedindo assim que a ele tenha a chance de responder, ele mostra certa lentidão, na verdade, no caso dele, ele simplesmente não responde, o Vini já chegou até a dizer, em uma situação de disparada de perguntas, que ele não ia falar mais nada para a pessoa, pois toda vez que ele ia iniciar a resposta a pessoa já vinha com outra pergunta por cima ou respondia pelo Vini, e ele, claro, percebeu e se cansou daquele tipo de “monólogo”. Não respeitar o tempo dessas crianças é prejudicial a elas, pois estamos impedindo uma criança de se expressar, e essas crianças, como qualquer outra, tem vontades, necessidades e capacidades que devem ser permitidas e nós devemos esperar e respeitar isso. Uma vez ouvi um filho dizendo que os passos da mãe já não acompanhavam mais o ritmo dos dele, devido à idade avançada, e, mostrando respeito por aquela mãe, ele dizia que ela não poderia mais acelerar o passo, mas ele poderia sim desacelerar os dele. E assim deve ser com aqueles que “andam” em outro ritmo, aqueles que são neurotípicos tem a capacidade de se adequar as necessidades das crianças atípicas e não o contrário, o que infelizmente vemos por toda a parte, praticamente impondo ao portador de deficiência que se enquadre às normas, regras e condições já existentes de uma maioria, não fazendo muito para que a equidade prevaleça.

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